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Tenho Hashimoto, posso engravidar?

Sim, quem tem Hashimoto pode engravidar. Entenda como a tireoide afeta a fertilidade, por que o primeiro trimestre exige atenção e o que ajustar antes de tentar engravidar.

Escrito e revisado por Dr. Mitsuo Obata · Médico · CRM 52541/PR Leitura: 8 min

Em resumo

  • Sim, quem tem Hashimoto pode engravidar. A tireoidite de Hashimoto não é contraindicação à gestação nem sentença de infertilidade.
  • O que pesa é o controle, não o diagnóstico. Hipotireoidismo descompensado atrapalha a ovulação e aumenta risco na gravidez; controlado, o cenário é outro.
  • O ideal é ajustar antes de tentar, não depois do teste positivo, as primeiras semanas são justamente as mais sensíveis.
  • Quem já usa reposição não deve interromper ao descobrir a gravidez. A necessidade costuma aumentar, não diminuir.
  • Anticorpo positivo com TSH normal também pede acompanhamento. Toda conduta é individual e depende de avaliação médica.

Essa pergunta chega com um susto embutido: veio o diagnóstico de Hashimoto, veio a leitura noturna sobre aborto e desenvolvimento do bebê, e a tireoide virou um obstáculo entre a paciente e a maternidade. A resposta clínica é mais tranquila do que o Google sugere, desde que o assunto seja tratado antes da gravidez, e não durante.

Tenho Hashimoto, posso engravidar?

Pode. A tireoidite de Hashimoto, por si só, não impede a gestação. Milhares de mulheres com o diagnóstico engravidam e levam gestações sem intercorrências todos os anos.

O que muda é o nível de atenção. Hashimoto é a causa mais comum de hipotireoidismo em mulheres em idade fértil, e a gravidez é um período em que a demanda sobre a tireoide sobe de forma abrupta. Ter o diagnóstico é entrar na gestação com um item a mais no radar, não com uma porta fechada. O contexto geral da doença está no guia de tireoide e Hashimoto.

Hashimoto atrapalha a fertilidade?

Pode atrapalhar quando o hipotireoidismo está descontrolado. Com a função tireoidiana ajustada, a fertilidade da maioria das mulheres não difere da de quem não tem a doença.

O hormônio tireoidiano em falta desorganiza o eixo reprodutivo: ciclos irregulares, sangramento aumentado, fase lútea curta, ciclos sem ovulação e prolactina elevada aparecem com mais frequência. Nada disso é exclusivo do Hashimoto, e na maior parte dos casos reverte quando a função é normalizada. Por isso avaliar a tireoide diante de dificuldade para engravidar é etapa básica, não raro é o único ajuste necessário.

Descobriu que está grávida e usa medicação para tireoide?

Não suspenda por conta própria e procure atendimento nas primeiras semanas. É comum parar o remédio com medo de prejudicar o bebê, e o efeito é o oposto do pretendido: a necessidade de hormônio tireoidiano aumenta logo no início da gestação. O ajuste é feito pelo médico, com exames.

Por que o primeiro trimestre é o período mais crítico?

Porque a tireoide do bebê ainda não funciona. Até por volta da décima segunda semana, o feto depende inteiramente do hormônio tireoidiano que vem da mãe.

Nesse mesmo intervalo a gestação impõe carga extra: o hormônio da gravidez estimula a tireoide e a necessidade diária sobe. Uma tireoide saudável responde produzindo mais. Uma tireoide com Hashimoto, já comprometida pelo processo autoimune, muitas vezes não tem essa reserva, e é aí que o TSH sobe sem que a paciente sinta nada. O pico de demanda coincide com a fase mais vulnerável do desenvolvimento neurológico. Daí a insistência em resolver isso antes da concepção.

Quais são os riscos se o hipotireoidismo não estiver controlado?

Hipotireoidismo não tratado na gestação está associado a mais abortamento, parto prematuro, pré-eclâmpsia, baixo peso ao nascer e prejuízo no desenvolvimento neurocognitivo do bebê.

A lista assusta e circula sem o contexto que importa: esses números vêm majoritariamente de gestações descompensadas ou nunca diagnosticadas. Com função adequada e acompanhamento, o risco se aproxima do de qualquer outra gestante. A informação serve para orientar o cuidado, não para produzir pânico em quem já está sendo acompanhada.

Situação Impacto na fertilidade Conduta habitual
Hashimoto com função normal, anticorpo positivo Geralmente preservada Monitorar, com atenção maior no início da gestação
Hipotireoidismo subclínico Pode interferir em parte dos casos Avaliar necessidade de tratamento individualmente
Hipotireoidismo estabelecido, em tratamento e controlado Tende a ser preservada Ajustar alvo antes de tentar engravidar
Hipotireoidismo sem tratamento ou descompensado Frequentemente prejudicada Corrigir antes de buscar a gestação

Meu TSH está normal, mas o anticorpo é positivo. Isso muda alguma coisa?

Muda o acompanhamento, não a possibilidade de engravidar. Anticorpo antitireoperoxidase positivo com função normal indica uma tireoide sob agressão autoimune, com menos reserva para responder à demanda da gravidez.

Estudos mostram associação entre autoimunidade tireoidiana e maior frequência de abortamento e parto prematuro mesmo com TSH dentro da faixa, e boa parte dessas mulheres desenvolve elevação do TSH ao longo da gestação. Isso justifica vigilância laboratorial mais próxima nos primeiros meses, não tratamento automático. Tratar ou apenas monitorar é decisão individual, discutida em consulta.

O que faz sentido resolver antes de tentar engravidar

Planejar com alguns meses de antecedência simplifica muito a gestação. A ideia é chegar à concepção com a função tireoidiana no alvo, e não corrigindo às pressas na sexta semana.

Suplementos vendidos como “reguladores da tireoide” não substituem essa checagem. Selênio aparece muito em fóruns, e a evidência não sustenta recomendação generalizada na gestação.

E depois do parto? Posso amamentar?

Pode. A reposição de hormônio tireoidiano é compatível com a amamentação, e interromper o tratamento nesse período é justamente o que não se deve fazer.

Dois pontos merecem atenção. A necessidade de hormônio tende a voltar ao patamar anterior à gravidez, o que exige reavaliação. E mulheres com anticorpos positivos têm risco maior de tireoidite pós-parto, quadro que aparece meses depois com fases de aceleração e depois de lentidão da tireoide, sintomas facilmente confundidos com cansaço de puérpera ou depressão pós-parto. Manter o acompanhamento no primeiro ano evita esse mal-entendido.

Perguntas frequentes

Hipotireoidismo não tratado está associado a maior risco de abortamento, e a autoimunidade tireoidiana aparece nessa associação em estudos populacionais. Associação não significa que vá acontecer com você, função controlada e acompanhamento mudam bastante esse cenário.

Se você já tem hipotireoidismo em tratamento, sim, e provavelmente com ajustes ao longo dos trimestres. Se tem apenas anticorpo positivo com função normal, pode ser que não. Quem define é o médico que acompanha, com exames em mãos.

Na primeira metade da gestação a reavaliação é frequente, tipicamente a cada poucas semanas, porque é quando a demanda muda mais rápido. Depois costuma espaçar. O intervalo exato depende do seu quadro e da estabilidade dos resultados.

Ter Hashimoto não determina doença tireoidiana no bebê. Existe componente hereditário de predisposição autoimune, o que é diferente de transmitir a doença. O teste do pezinho rastreia hipotireoidismo congênito em todos os recém-nascidos.

Pode ser um dos fatores, sobretudo se houver ciclos irregulares. Mas infertilidade raramente tem causa única: a investigação precisa incluir ovulação, trompas, útero e o parceiro. A tireoide é parte do processo, não o processo inteiro.

Não há evidência que sustente retirada de glúten como conduta padrão no Hashimoto. A exceção é quem tem doença celíaca associada, que precisa ser diagnosticada com exame e não por tentativa. Restrições alimentares na gestação merecem cautela redobrada.

Referências

  1. Alexander EK, Pearce EN, Brent GA, et al. 2017 Guidelines of the American Thyroid Association for the Diagnosis and Management of Thyroid Disease During Pregnancy and the Postpartum. Thyroid. 2017;27(3):315-389. doi:10.1089/thy.2016.0457
  2. Korevaar TIM, Medici M, Visser TJ, Peeters RP. Thyroid disease in pregnancy: new insights in diagnosis and clinical management. Nature Reviews Endocrinology. 2017;13(10):610-622. doi:10.1038/nrendo.2017.93
  3. Thangaratinam S, Tan A, Knox E, Kilby MD, Franklyn J, Coomarasamy A. Association between thyroid autoantibodies and miscarriage and preterm birth: meta-analysis of evidence. BMJ. 2011;342:d2616. doi:10.1136/bmj.d2616

Conteúdo informativo, escrito e revisado por Dr. Mitsuo Obata — Médico · CRM 52541/PR. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individualizado. Resultados variam de pessoa para pessoa e não são garantidos.

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Dr. Mitsuo Obata

Médico com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia. Atende em Londrina e por telemedicina, com foco em lipedema, tireoide e emagrecimento.

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