Resposta rápida: Sim, é possível ganhar peso mesmo usando tirzepatida (Mounjaro). A resposta ao medicamento varia muito entre pessoas, e ele não anula calorias ingeridas: líquidos calóricos, beliscos frequentes, perda de massa muscular, outras medicações e condições clínicas não tratadas podem manter ou até elevar o peso. Se isso está acontecendo com você, o caminho é reavaliação médica, não aumentar nada por conta própria.
Isso realmente acontece ou fiz algo errado?
Acontece, e não é raro. Em qualquer estudo com tirzepatida existe uma parcela de participantes que responde pouco ou não responde, mesmo com uso correto. Você não está necessariamente “fazendo algo errado”.
Nos ensaios clínicos que sustentaram a aprovação do medicamento para obesidade, a média de perda de peso foi expressiva, mas média esconde extremos: uma minoria dos participantes perdeu muito pouco, e alguns mantiveram ou ganharam peso. Biologia individual, genética, composição corporal, sensibilidade aos hormônios GIP e GLP-1 que o fármaco imita, explica parte disso. A outra parte está no comportamento, na rotina e em fatores clínicos que o medicamento sozinho não resolve. Antes de concluir qualquer coisa, vale separar essas camadas com calma, de preferência em consulta.
O medicamento reduz a fome, mas não bloqueia calorias
A tirzepatida age em receptores que aumentam saciedade e retardam o esvaziamento do estômago. Ela muda o quanto você sente vontade de comer, não o destino das calorias que você decide ingerir mesmo assim.
É aqui que mora o padrão mais comum de “engordei tomando Mounjaro”: a pessoa come menos volume de comida sólida, sente-se satisfeita, mas mantém um fluxo constante de calorias que passa por baixo do radar da saciedade. Líquidos calóricos são os principais, refrigerante, suco, álcool, café com açúcar e creme, achocolatado. Líquido esvazia rápido do estômago e quase não dispara saciedade, então o freio do medicamento mal atua sobre ele. O mesmo vale para beliscos pequenos e frequentes ao longo do dia: nenhum deles parece uma refeição, mas a soma pode superar o que você comia antes em três refeições estruturadas. Esse manejo do padrão alimentar é trabalho de nutricionista; um bom ponto de partida é o material do nutricionista Marcos Hirata sobre comportamento alimentar durante o tratamento.
Perder músculo pode reduzir seu gasto e mascarar o resultado
Quando se come muito pouco e sem proteína suficiente, parte relevante do peso perdido é massa muscular. Menos músculo significa menor gasto energético em repouso, e um metabolismo que passa a “caber” em menos calorias.
Esse mecanismo cria um cenário traiçoeiro: a pessoa perde peso nos primeiros meses, perde junto músculo, o gasto diário cai, e o mesmo padrão alimentar que antes gerava déficit passa a gerar equilíbrio ou superávit. Na balança, isso aparece como estagnação seguida de reganho, ainda durante o uso. Preservar músculo exige proteína adequada e treino de força, dois pilares que nenhuma medicação substitui. É também por isso que acompanhar apenas o número da balança engana: composição corporal importa tanto quanto peso total.
Outras medicações e condições podem estar puxando o peso para cima
Corticoides, alguns antidepressivos e antipsicóticos, certos anticonvulsivantes e a insulina podem favorecer ganho de peso. Hipotireoidismo descompensado, retenção de líquidos, alterações hormonais e distúrbios do sono também entram na conta.
Se você iniciou ou ajustou outro medicamento no mesmo período, ou se tem uma condição clínica não avaliada recentemente, o ganho de peso pode ter pouco a ver com a tirzepatida em si. Edema, acúmulo de líquido por problema cardíaco, renal, hepático ou medicamentoso. Pode elevar o peso rapidamente sem nenhum grama de gordura nova. Só a avaliação médica, com exame físico e exames laboratoriais quando indicados, separa gordura de líquido e identifica o que mais está agindo. Essa investigação é parte do que descrevo no guia de emagrecimento com acompanhamento médico.
Procedência e forma de uso também entram na equação
Produto de origem duvidosa, versões manipuladas sem controle de qualidade, armazenamento inadequado e aplicação incorreta podem entregar menos fármaco do que se imagina, ou fármaco nenhum.
A tirzepatida é uma molécula sensível: exige refrigeração correta e técnica de aplicação adequada. No mercado informal circulam produtos falsificados e formulações manipuladas cuja concentração real ninguém garante. Quem usa sem prescrição e sem acompanhamento não tem como saber se está recebendo a substância declarada. Além do risco de ineficácia, há risco de segurança real. Existe ainda o uso off-label, fora das indicações aprovadas em bula, que só deve ocorrer, quando ocorre, sob decisão e responsabilidade médica explícita, nunca por conta própria.
Não ajuste nada por conta própria
Diante de resposta insuficiente ou ganho de peso, a conduta errada é “compensar” alterando aplicação, frequência ou produto sem orientação. Indicação, início, ajuste e interrupção da tirzepatida são decisões médicas individuais, tomadas com base em exames, resposta clínica e tolerabilidade. Automedicação aqui aumenta risco de efeitos adversos gastrointestinais importantes sem garantia de resultado.
Parei e voltei a engordar: isso é esperado?
Sim. A obesidade é doença crônica, e o efeito do medicamento existe enquanto ele está sendo usado. Estudos mostram que a interrupção tende a ser seguida de reganho progressivo de boa parte do peso perdido.
No estudo SURMOUNT-4, participantes que suspenderam a tirzepatida após uma fase inicial de tratamento recuperaram peso de forma consistente, enquanto quem manteve o uso continuou se beneficiando. O mesmo padrão foi documentado com a semaglutida. Isso não significa que o tratamento “viciou” o corpo: significa que os mecanismos biológicos que defendem o peso elevado, fome aumentada, gasto reduzido, voltam a operar sem o contrapeso farmacológico. Por isso a decisão de parar, quando e como, precisa ser planejada com o médico, com estratégia de manutenção estruturada em alimentação, atividade física e seguimento.
Comparando as causas mais comuns de ganho de peso durante o uso
| Causa provável | Como se manifesta | Quem avalia e conduz |
|---|---|---|
| Calorias líquidas e beliscos que contornam a saciedade | Pouca fome em refeições, mas peso estável ou subindo | Nutricionista, com registro alimentar detalhado |
| Perda de massa muscular e queda do gasto energético | Perda inicial seguida de estagnação e reganho; fraqueza | Médico e nutricionista; avaliação de composição corporal |
| Outras medicações ou condições clínicas (edema, hormônios, sono) | Ganho rápido, inchaço, sintomas associados | Médico, com exame clínico e laboratorial |
| Produto informal, falsificado ou mal armazenado | Ausência total de efeito, inclusive dos efeitos esperados | Médico; verificar procedência e técnica de uso |
| Resposta biológica insuficiente ao fármaco | Uso correto, alimentação ajustada, ainda assim sem resposta | Médico, que reavalia estratégia terapêutica |
O que fazer agora: reavaliação, não improviso
Leve a questão para consulta com registro honesto do que você come e bebe, lista completa de medicamentos em uso e histórico do peso. A partir daí, médico e nutricionista conseguem identificar a causa e redesenhar o plano.
Na prática, a reavaliação costuma incluir: revisão da procedência e da técnica de uso; rastreio de medicações e condições que favorecem ganho de peso; avaliação de composição corporal; e análise do padrão alimentar real, não do idealizado. Em alguns casos a conclusão é ajustar a estratégia farmacológica; em outros, o problema está inteiramente fora do medicamento. Tratamento de obesidade e de diabetes tipo 2 é projeto de longo prazo, com reavaliações periódicas, a medicação é uma ferramenta dentro dele, não o projeto inteiro.
Perguntas frequentes
Não pare por conta própria. Interrupção abrupta sem plano tende a piorar o quadro, e a causa do ganho pode nem estar no medicamento. Agende reavaliação médica para investigar antes de qualquer mudança.
É possível. Existe uma parcela de pessoas com resposta fraca ou ausente nos próprios estudos clínicos. Antes de assumir isso, porém, é preciso excluir causas corrigíveis: padrão alimentar, procedência do produto, outras medicações e condições clínicas.
A intensidade do efeito sobre a fome varia entre pessoas e ao longo do tratamento. Sono ruim, estresse, álcool e refeições pobres em proteína também aumentam a fome. Isso deve ser relatado ao médico, que avalia se há ajuste a fazer.
Sim. Edema por causas cardíacas, renais, hormonais ou medicamentosas eleva o peso sem ganho de gordura, às vezes rapidamente. Inchaço em pernas, tornozelos ou abdome é sinal para procurar avaliação médica.
Os estudos mostram tendência clara de reganho após a interrupção, porque a obesidade é doença crônica. A magnitude varia e depende muito da estrutura de manutenção, alimentação, atividade física e acompanhamento, construída durante o tratamento.
Não há garantia. Formulações manipuladas e produtos de origem informal não passam pelo mesmo controle de qualidade, e a concentração real pode ser menor que a declarada, ou nula. Além da ineficácia, há risco de segurança. Use apenas produto de procedência verificada, com prescrição.
Referências
- Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-1). New England Journal of Medicine, 2022. DOI: 10.1056/NEJMoa2206038.
- Aronne LJ, Sattar N, Horn DB, et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA, 2024.
- Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022.
Conteúdo informativo, escrito e revisado por Dr. Mitsuo Obata — Médico · CRM 52541/PR. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individualizado. Resultados variam de pessoa para pessoa e não são garantidos.